Doença arterial · Para colegas e pacientes

Sinta o pulso

O exame mais simples que existe — aprendido ainda na faculdade — é capaz de redesenhar o risco cardiovascular de uma pessoa inteira. Só é preciso não deixar de fazê-lo.

Há um gesto que aprendemos cedo, na propedêutica, e que muita gente vai abandonando pelo caminho: palpar os pulsos. Pedioso, tibial posterior, poplíteo, femoral. Parece básico — e é justamente por parecer básico que passa despercebido. Mas poucos exames dizem tanto sobre uma pessoa com tão pouco.

Vou ser direta: examinar pulsos periféricos é uma habilidade que se treina. Não é intuição, é técnica. Encontrar o ponto certo no pé, dosar a pressão dos dedos, reconhecer quando o que se sente é o pulso do paciente e não o seu próprio. Isso se aprende repetindo, desde os primeiros anos da faculdade — e se perde quando a gente para de fazer.

Por isso insisto tanto com quem está se formando: palpe os pulsos de todos os pacientes, mesmo os assintomáticos, mesmo quando "não é o foco da consulta". Não é perda de tempo nem preciosismo. É o treino que constrói o olhar — e é o que garante que, no dia em que um pulso faltar, você vá perceber.

Porque o dia em que você não sentir um pulso, tudo muda.

Um pulso ausente não é um problema da perna

Um paciente sem pulsos periféricos não é um achado local, restrito ao membro. É a ponta visível de uma doença aterosclerótica significativa — e a aterosclerose raramente se limita a um território só. Quem tem as artérias das pernas comprometidas quase sempre carrega o mesmo processo nas coronárias; a doença carotídea é menos frequente, mas também pode estar presente. Aquele pulso que não bate é o aviso de que estamos diante de um paciente de altíssimo risco cardiovascular.

E há um detalhe que torna esse aviso ainda mais precioso: quando a doença aterosclerótica finalmente dá sinais, os sintomas costumam já ser graves — um infarto, um AVC, uma isquemia crítica do membro. Raramente ela avisa baixinho. Por isso o pulso ausente, colhido num paciente ainda assintomático, é uma janela rara: a chance de agir antes. A prevenção é a verdadeira chave.

E, a partir daí, a estratégia inteira se reorganiza. Muda a meta de pressão arterial. Muda a conversa sobre colesterol e a indicação de estatina. Muda a urgência de tratar o tabagismo e o diabetes. Muda o peso que damos à antiagregação. Muda, inclusive, a forma como pensamos qualquer outro procedimento que esse paciente venha a enfrentar — uma cirurgia, um cateterismo — porque agora sabemos que o sistema vascular dele inteiro pede cautela.

Um único dado de exame físico, colhido em segundos e sem nenhuma tecnologia, reposiciona a pessoa numa outra categoria de cuidado. É difícil pensar em algo com melhor custo-benefício na medicina.

Na prática, para quem está treinando

Examine sempre os quatro territórios seguindo o trajeto do sangue — do femoral ao poplíteo, depois tibial posterior e pedioso — e sempre de forma comparativa, um lado contra o outro. Aqueça as mãos, use as polpas de dois ou três dedos e uma pressão leve. Na dúvida entre o pulso do paciente e o seu, cheque a própria frequência: se batem juntos, é o seu.

E guarde a lógica que dissolve boa parte da confusão de quem está começando na cirurgia vascular: o fluxo arterial é unidirecional e centrífugo — corre do centro para a periferia, como um encanamento. Se não há pulso femoral, não haverá poplíteo; se não há poplíteo, não haverá pulsos distais. A obstrução está sempre acima do primeiro pulso que desaparece. Não tem mistério.

Quando não encontrar um pulso, não pare no achado. Some ao restante do quadro: histórico, fatores de risco, tempo de enchimento capilar, temperatura e cor do membro. E, se a suspeita se confirmar, o índice tornozelo-braquial é o próximo passo simples e objetivo.

Se você é paciente

Fica com esta ideia: um bom exame não é só o que aparece nos aparelhos. Quando o médico palpa os seus pés, os tornozelos e as virilhas, ele está lendo as suas artérias com as mãos. Deixe examinar, tire os sapatos, não tenha pressa nessa parte da consulta. Às vezes é exatamente ali, num pulso que não bate, que a medicina consegue agir antes de o problema virar um susto maior — no coração ou no cérebro.

Nada disso exige custo, tempo ou equipamento. Exige mão treinada e a disposição de examinar por completo — sempre, e não só quando o paciente já chega reclamando das pernas. Continua sendo, para mim, um dos gestos mais bonitos da nossa profissão: tocar para entender.

Dra. Tayrine Mazotti

Cirurgiã vascular, com formação e corpo clínico ligados à Universidade de São Paulo. Escreve sobre cirurgia vascular para pacientes, colegas e residentes.

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